segunda-feira, 27 de abril de 2009

“Andando pela rua com gêmeos” ou “Tenha filhos e jogue fora a sua privacidade”

As pessoas são fascinadas por gêmeos. Como eu não sou gêmea e nem nunca tive primos, amigos, conhecidos e nem mesmo colegas da aula de inglês que fossem gêmeos, essa curiosidade tinha me passado despercebida até que, há mais ou menos 10 anos, dei à luz duas meninas que, sim, são gêmeas.
Descobri que ninguém resiste a um carrinho duplo, as pessoas simplesmente têm que chegar perto e dar uma “espiadinha”. Aí, vêm, é claro, perguntas... Ah! As perguntas... Depois de ter minhas filhas, aparentemente passei a viver num mundo paralelo onde é completamente normal pessoas estranhas te abordarem com todo tipo de perguntas, não importa o quão bizarras ou íntimas.
A mais comum: “É gêmeos?”. Você imaginaria que o poder de concordância do indivíduo médio fosse mais elevado, não? Mas 97,6% dos transeuntes que avistam um carrinho duplo fazem essa pergunta. É verdade, está cientificamente comprovado (por mim).
Depois de repetir milhares de vezes que “sim, são gêmeas”, eu passei a usar a criatividade e responder coisas do tipo:
- Não, uma é minha a outra é da vizinha.
- Não, uma é a original e a outra é xerox.
- Não, elas têm três anos de diferença.
Ou então uma alternativa mais radical:
-Gêmeos? Aonde? (rápida olhadela para o carrinho) Socorro!!!! Alguém colocou um bebê no meu carrinho!!!!
Aí vem a inevitável segunda pergunta: “São idênticas?” Caramba! Será que o povo todo tem problema de visão? Eu até entendo que bebezinhos pequeninhos são todos meio parecidos, mas as pessoas me perguntavam isso quando as minhas filhas já eram crescidinhas e, detalhe: uma era morena com o cabelo liso e a outra loira de cachinhos!
Independentemente da resposta à pergunta anterior, o checklist do transeunte que se depara com uma mãe e seus bebês gêmeos fatalmente inclui alguma referência à placenta. “É de uma placenta só ou duas?”. Deixando de lado um pouco a questão da concordância para não ficar repetitiva, eu pergunto: Que diferença faz? Quem no mundo quer discutir detalhes da sua PLACENTA com o encanador/peixeiro/atendente da lavanderia/frentista, ou qualquer outra pessoa aleatória que passa pelo seu caminho diariamente? Eu não.
Também tem a clássica: “Você é mais apegada a qual das duas?”. Isso na frente de duas meninas de três anos olhando para autor da pergunta com os olhos arregalados. Hum-hum, eu vou te responder isso, claro, afinal o que são 10 anos de análise para a “menos apegada”? Bobagem!
E para completar, não dá para deixar de fora a pergunta final (invariavelmente acompanhada de uma expressão facial engraçadinha): “E aí, você fechou a fábrica?”. Desculpem, podem me chamar de rabugenta, mas por algum motivo eu prefiro manter a minha escolha sobre métodos contraceptivos de fora da conversa com a caixa do supermercado. Mas sei lá, vai ver que eu que estou errada...

Vida perfeita ou um perfeito caos?

Dependendo do ângulo que você olhe, a minha vida é perfeita ou um perfeito caos.

Eu sou jovem, tenho trinta-e-poucos anos, sou casada, tenho três filhas lindas, uma profissão que eu gosto e que me paga bem. Trabalho em casa e faço o meu horário. Tenho uma casa legal e meu marido gosta de cozinhar, então sempre temos amigos para jantar. Meu marido tem a empresa dele e aproveitamos a flexibilidade dos nossos trabalhos para aproveitar a vida ao máximo, viajando, saindo, fazendo o que temos vontade.

Ou...

Já estou chegando aos quarenta. Meu Deus! Onde foram parar esses anos todos? Eu juro que ainda ontem eu tinha 22. Sou casada e tenho três filhas e tenho que administrar esse pessoal todo, marcar médicos variados, de especialidades variadas para pessoas variadas, levar no colégio, mandar trocar a sola do sapato, levar no balé, levar uma para apertar o aparelho, fazer compras, passar pomada na alergia, levar para apertar o aparelho, comprar comida prá tartaruga, comprar outro uniforme de educação física (que o do mês passado já furou), levar para apertar o aparelho, comprar o queijo que o marido não vive sem e chamar o homem da Net. Ah, e levar para apertar o aparelho. E fazer terapia.

Eu trabalho em casa e vou esganar a próxima pessoa que me olhar com cara de quem acha que “trabalhar em casa” é “trabalhar mais ou menos”. Eu tenho cliente e prazo como qualquer um, só que enquanto a maioria fala no telefone com seus clientes sentada numa mesa de escritório, com no máximo uma musiquinha ambiente ao fundo, eu falo com os meus enquanto faço uma maria-chiquinha em uma criança, aparto a briga entre as outras duas com o pé e tento transmitir para a empregada através de uma série de caretas prá combinadas o que é para fazer para o jantar.

Sabe fim-de-semana? Pois é, eu não. Eu trabalho tanto nos fins-de-semana que quando, por algum milagre, eu não trabalho em algum minha família fica me olhando com cara de “o que vamos fazer hoje com essa estranha?”.

Exageros a parte, esse blog é sobre essa loucura de “tudo-ao-mesmo-tempo-agora” de tentar ser boa profissional sem deixar de ser uma excelente mãe, estar presente sem ser grudenta, criativa, mas pé-no-chão, tudo isso sem perder o bom humor e a capacidade de rir das bizarrices do dia-a-dia.

Se você gosta de viajar, ler, cozinhar, ir ao cinema, ao teatro, jogar bolinha de gude ou simplesmente jogar conversa fora, puxa uma cadeira, pega uma latinha de coca light (ou uma dose de uísque – o fígado é seu, fique à vontade) e sinta-se em casa.