quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Crise está aqui e não acho isso de todo ruim

A crise está aqui. Deve existir uma parte da população que (ainda) não está sentindo os efeitos dela e outra parte que já anda perdendo o emprego e enfrentando barras pesadíssimas. O que vou dizer a seguir não se aplica a nenhum dos grupos acima.
Aqui em casa estamos num meio termo, nossa renda caiu, mas continuamos a viver nossa vida relativamente normal, só com menos dinheiro livre para despesas “extras”. E, para ser muito franca, não sei se acho isso uma coisa realmente ruim.
O que acontece é que eu acredito que a gente vinha vivendo um período de exagero. Exagero de tudo quanto é coisa material. Minhas filhas, honestamente, têm 100 vezes mais brinquedos do que elas são capazes de brincar. A cada aniversário eu faço uma limpa no armário de brinquedo delas para fazer espaço pras coisas novas e, mesmo assim, eu sempre encontro, meses depois da festa, um ou outro brinquedo novo ainda na caixa, esquecido no meio dos outros. Ou seja, elas têm tanta coisa, mas tanta coisa, que um brinquedo novinho, ainda na caixa, passa despercebido numa boa.
Teve uma vez que eu me dei ao trabalho de fazer um censo das Barbies que habitavam a minha casa. Juntando as das minhas três filhas, tinha 56 Barbies morando no armário de brinquedo. 56. Ninguém, no mundo, precisa de 56 Barbies. Naquele dia eu fiz uma limpa e tirei 30. O orfanato aqui perto de casa ganhou 30 Barbies e as minhas filhas nem notaram a falta delas.
Sem querer entrar na nostalgia de “ah como as coisas eram melhores antigamente”, quando eu tinha a idade das minhas filhas, eu tinha UMA ÚNICA Barbie, assim como a maior parte das minhas amigas. Se eu queria ter mais de uma? CLARO que sim. E aí entra outro ponto importante: tinha várias coisas que eu queria MUITO ter: uma Barbie com vestido de noiva (a minha tinha o bikini verde-água padrão das Barbies da época), uns patins “de bota”, um Falcon “olhos de águia” (quem foi criança no fim dos anos 70 e início dos 80 sabe do que eu estou falando).
Eram coisas que eu queria muito, nas quais eu passava um tempão pensando e que eu esperava meu aniversário ou o Natal para TALVEZ ganhar. E se, afinal, eu realmente ganhasse qualquer uma delas, aquilo era uma fonte enorme de prazer, um pico de felicidade mesmo. Um brinquedo novo era quase um tesouro e não havia qualquer remota possibilidade dele ficar esquecido num canto da casa, ainda na caixa.
Para as minhas filhas, um brinquedo novo é só mais um brinquedo novo. Aquilo não dá a elas o pico de felicidade que dava para as crianças da geração passada. E, embora cheias de brinquedos, acho que elas vivem uma infância mais pobre por não experimentar esses picos de felicidade.
As minhas filhas não desejam realmente nada, e isso não está certo. Claro que parte da culpa é minha mesma, que volta e meia caio na tentação de dar a elas o que eu não tive (que atire a primeira pedra quem nunca fez isso). Mas além de mim (que, juro, tento me controlar ao máximo), elas têm avós, tios, tios-avós, padrinhos e madrinhas, todos encantados com a possibilidade de encher as crianças de presentes. E isso é difícil de controlar.
Não acho positivo as crianças crescerem sem o sentimento do desejo por alguma coisa, sem aprender a querer algo, esperar, juntar a mesada prá comprar. Mas, ao mesmo tempo, é difícil evitar, as coisas estavam todas relativamente baratas e todos nós numa situação relativamente confortável. Daí que vem a minha afirmação de que eu não acho a chegada da crise de todo ruim.
Espero que com menos dinheiro para despesas “extras” a gente volte a um certo equilíbrio, com menos excesso de consumo, com mais tempo com a família, com mais tempo para aproveitar coisas mais simples que não custam nada, como ir à praia ou caminhar na Lagoa. E com menos Barbies.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

“Andando pela rua com gêmeos” ou “Tenha filhos e jogue fora a sua privacidade”

As pessoas são fascinadas por gêmeos. Como eu não sou gêmea e nem nunca tive primos, amigos, conhecidos e nem mesmo colegas da aula de inglês que fossem gêmeos, essa curiosidade tinha me passado despercebida até que, há mais ou menos 10 anos, dei à luz duas meninas que, sim, são gêmeas.
Descobri que ninguém resiste a um carrinho duplo, as pessoas simplesmente têm que chegar perto e dar uma “espiadinha”. Aí, vêm, é claro, perguntas... Ah! As perguntas... Depois de ter minhas filhas, aparentemente passei a viver num mundo paralelo onde é completamente normal pessoas estranhas te abordarem com todo tipo de perguntas, não importa o quão bizarras ou íntimas.
A mais comum: “É gêmeos?”. Você imaginaria que o poder de concordância do indivíduo médio fosse mais elevado, não? Mas 97,6% dos transeuntes que avistam um carrinho duplo fazem essa pergunta. É verdade, está cientificamente comprovado (por mim).
Depois de repetir milhares de vezes que “sim, são gêmeas”, eu passei a usar a criatividade e responder coisas do tipo:
- Não, uma é minha a outra é da vizinha.
- Não, uma é a original e a outra é xerox.
- Não, elas têm três anos de diferença.
Ou então uma alternativa mais radical:
-Gêmeos? Aonde? (rápida olhadela para o carrinho) Socorro!!!! Alguém colocou um bebê no meu carrinho!!!!
Aí vem a inevitável segunda pergunta: “São idênticas?” Caramba! Será que o povo todo tem problema de visão? Eu até entendo que bebezinhos pequeninhos são todos meio parecidos, mas as pessoas me perguntavam isso quando as minhas filhas já eram crescidinhas e, detalhe: uma era morena com o cabelo liso e a outra loira de cachinhos!
Independentemente da resposta à pergunta anterior, o checklist do transeunte que se depara com uma mãe e seus bebês gêmeos fatalmente inclui alguma referência à placenta. “É de uma placenta só ou duas?”. Deixando de lado um pouco a questão da concordância para não ficar repetitiva, eu pergunto: Que diferença faz? Quem no mundo quer discutir detalhes da sua PLACENTA com o encanador/peixeiro/atendente da lavanderia/frentista, ou qualquer outra pessoa aleatória que passa pelo seu caminho diariamente? Eu não.
Também tem a clássica: “Você é mais apegada a qual das duas?”. Isso na frente de duas meninas de três anos olhando para autor da pergunta com os olhos arregalados. Hum-hum, eu vou te responder isso, claro, afinal o que são 10 anos de análise para a “menos apegada”? Bobagem!
E para completar, não dá para deixar de fora a pergunta final (invariavelmente acompanhada de uma expressão facial engraçadinha): “E aí, você fechou a fábrica?”. Desculpem, podem me chamar de rabugenta, mas por algum motivo eu prefiro manter a minha escolha sobre métodos contraceptivos de fora da conversa com a caixa do supermercado. Mas sei lá, vai ver que eu que estou errada...

Vida perfeita ou um perfeito caos?

Dependendo do ângulo que você olhe, a minha vida é perfeita ou um perfeito caos.

Eu sou jovem, tenho trinta-e-poucos anos, sou casada, tenho três filhas lindas, uma profissão que eu gosto e que me paga bem. Trabalho em casa e faço o meu horário. Tenho uma casa legal e meu marido gosta de cozinhar, então sempre temos amigos para jantar. Meu marido tem a empresa dele e aproveitamos a flexibilidade dos nossos trabalhos para aproveitar a vida ao máximo, viajando, saindo, fazendo o que temos vontade.

Ou...

Já estou chegando aos quarenta. Meu Deus! Onde foram parar esses anos todos? Eu juro que ainda ontem eu tinha 22. Sou casada e tenho três filhas e tenho que administrar esse pessoal todo, marcar médicos variados, de especialidades variadas para pessoas variadas, levar no colégio, mandar trocar a sola do sapato, levar no balé, levar uma para apertar o aparelho, fazer compras, passar pomada na alergia, levar para apertar o aparelho, comprar comida prá tartaruga, comprar outro uniforme de educação física (que o do mês passado já furou), levar para apertar o aparelho, comprar o queijo que o marido não vive sem e chamar o homem da Net. Ah, e levar para apertar o aparelho. E fazer terapia.

Eu trabalho em casa e vou esganar a próxima pessoa que me olhar com cara de quem acha que “trabalhar em casa” é “trabalhar mais ou menos”. Eu tenho cliente e prazo como qualquer um, só que enquanto a maioria fala no telefone com seus clientes sentada numa mesa de escritório, com no máximo uma musiquinha ambiente ao fundo, eu falo com os meus enquanto faço uma maria-chiquinha em uma criança, aparto a briga entre as outras duas com o pé e tento transmitir para a empregada através de uma série de caretas prá combinadas o que é para fazer para o jantar.

Sabe fim-de-semana? Pois é, eu não. Eu trabalho tanto nos fins-de-semana que quando, por algum milagre, eu não trabalho em algum minha família fica me olhando com cara de “o que vamos fazer hoje com essa estranha?”.

Exageros a parte, esse blog é sobre essa loucura de “tudo-ao-mesmo-tempo-agora” de tentar ser boa profissional sem deixar de ser uma excelente mãe, estar presente sem ser grudenta, criativa, mas pé-no-chão, tudo isso sem perder o bom humor e a capacidade de rir das bizarrices do dia-a-dia.

Se você gosta de viajar, ler, cozinhar, ir ao cinema, ao teatro, jogar bolinha de gude ou simplesmente jogar conversa fora, puxa uma cadeira, pega uma latinha de coca light (ou uma dose de uísque – o fígado é seu, fique à vontade) e sinta-se em casa.