A crise está aqui. Deve existir uma parte da população que (ainda) não está sentindo os efeitos dela e outra parte que já anda perdendo o emprego e enfrentando barras pesadíssimas. O que vou dizer a seguir não se aplica a nenhum dos grupos acima.
Aqui em casa estamos num meio termo, nossa renda caiu, mas continuamos a viver nossa vida relativamente normal, só com menos dinheiro livre para despesas “extras”. E, para ser muito franca, não sei se acho isso uma coisa realmente ruim.
O que acontece é que eu acredito que a gente vinha vivendo um período de exagero. Exagero de tudo quanto é coisa material. Minhas filhas, honestamente, têm 100 vezes mais brinquedos do que elas são capazes de brincar. A cada aniversário eu faço uma limpa no armário de brinquedo delas para fazer espaço pras coisas novas e, mesmo assim, eu sempre encontro, meses depois da festa, um ou outro brinquedo novo ainda na caixa, esquecido no meio dos outros. Ou seja, elas têm tanta coisa, mas tanta coisa, que um brinquedo novinho, ainda na caixa, passa despercebido numa boa.
Teve uma vez que eu me dei ao trabalho de fazer um censo das Barbies que habitavam a minha casa. Juntando as das minhas três filhas, tinha 56 Barbies morando no armário de brinquedo. 56. Ninguém, no mundo, precisa de 56 Barbies. Naquele dia eu fiz uma limpa e tirei 30. O orfanato aqui perto de casa ganhou 30 Barbies e as minhas filhas nem notaram a falta delas.
Sem querer entrar na nostalgia de “ah como as coisas eram melhores antigamente”, quando eu tinha a idade das minhas filhas, eu tinha UMA ÚNICA Barbie, assim como a maior parte das minhas amigas. Se eu queria ter mais de uma? CLARO que sim. E aí entra outro ponto importante: tinha várias coisas que eu queria MUITO ter: uma Barbie com vestido de noiva (a minha tinha o bikini verde-água padrão das Barbies da época), uns patins “de bota”, um Falcon “olhos de águia” (quem foi criança no fim dos anos 70 e início dos 80 sabe do que eu estou falando).
Eram coisas que eu queria muito, nas quais eu passava um tempão pensando e que eu esperava meu aniversário ou o Natal para TALVEZ ganhar. E se, afinal, eu realmente ganhasse qualquer uma delas, aquilo era uma fonte enorme de prazer, um pico de felicidade mesmo. Um brinquedo novo era quase um tesouro e não havia qualquer remota possibilidade dele ficar esquecido num canto da casa, ainda na caixa.
Para as minhas filhas, um brinquedo novo é só mais um brinquedo novo. Aquilo não dá a elas o pico de felicidade que dava para as crianças da geração passada. E, embora cheias de brinquedos, acho que elas vivem uma infância mais pobre por não experimentar esses picos de felicidade.
As minhas filhas não desejam realmente nada, e isso não está certo. Claro que parte da culpa é minha mesma, que volta e meia caio na tentação de dar a elas o que eu não tive (que atire a primeira pedra quem nunca fez isso). Mas além de mim (que, juro, tento me controlar ao máximo), elas têm avós, tios, tios-avós, padrinhos e madrinhas, todos encantados com a possibilidade de encher as crianças de presentes. E isso é difícil de controlar.
Não acho positivo as crianças crescerem sem o sentimento do desejo por alguma coisa, sem aprender a querer algo, esperar, juntar a mesada prá comprar. Mas, ao mesmo tempo, é difícil evitar, as coisas estavam todas relativamente baratas e todos nós numa situação relativamente confortável. Daí que vem a minha afirmação de que eu não acho a chegada da crise de todo ruim.
Espero que com menos dinheiro para despesas “extras” a gente volte a um certo equilíbrio, com menos excesso de consumo, com mais tempo com a família, com mais tempo para aproveitar coisas mais simples que não custam nada, como ir à praia ou caminhar na Lagoa. E com menos Barbies.

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